Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Anamnese termobucólica

É quinta, e vai estar frio. Não sei o que vos diga do frio. Quando me lembro de como é o verão por aqui, não vou dizer que prefiro o calor. Quer um, quer outro, tem vantagens e inconvenientes. Com o calor vamos tirando roupa. Isso tem um limite, quando se chega à pele e não há mais nada que se possa tirar sem fazer sangue ou arrancar pelos. A partir daí, ou há ar condicionado, ou temos de passar a tarde no chuveiro, como me aconteceu em Madrid, num parque de campismo, na minha juventude de viagens forçadas.

Com o frio, vamos aumentando a conta da luz, acendendo a lareira, pondo roupa em cima. Também tem um limite, mas raramente por cá isso acontece; é quando o frio passa a roupa toda.

Assim, entre uma coisa e a outra, venha o diabo e escolha; por mim, sou pelo fim da primavera e pelo outono, até novembro, e, quanto menos roupa, mais satisfeito.

 

É fevereiro. Acho que devem ter reparado. É inverno. Em fevereiro costuma haver assim uma ou outra semana de frio. Mas a Sibéria bem podia ter fechado a porta (não, esta imagem não é minha, é mesmo roubada).

Não estou muito preocupado, já que os meus sensores de temperatura "Made in China" nunca registaram, em quase dez anos, nenhuma temperatura negativa por aqui, nem nunca vi geada. Minto: vi uma só vez, nos párabrisas, mas as escovas deram conta dela, não é como na estranja, em que é preciso um raspador.

Mas mesmo assim, desagrada-me. Como diria o Jacinto do 202, é uma maçada.

O frio é francamente pior com vento, e também vai haver. Aqui na sala lá vamos tendo dezasseis ou dezassete graus, o que é cómodo em se vestindo um bom casaco. Valem-nos o ar condicionado e a lareira, a ser caso disso. Se tivéssemos por cá mais pessoas não estava tanto frio.

O corredor é um problema. Todos os corredores são, tipicamente, problemas. Nunca conheci um corredor quente, exceto em hotéis e coisas dessas. Este, ao menos, não tem correntes de ar. Tenho lá dois aquecedores daqueles que a EDP fez o favor de me recomendar e que gastam que é uma loucura, e consigo fazer subir a temperatura de um grauzinho: de onze para doze, isto de dia, não de madrugada. A vantagem é que nos corredores também se não faz sala. Sala, apropriadamente, far-se-á na sala. Também não se faz sala no quarto, regra geral. Muitas vezes na cozinha, e quase nunca na despensa. As senhoras também podem fazê-lo na casa de banho, mas não os homens. Ora imaginem o António a dizer, no fim do jantar: "Jorge, vou à casa de banho, queres vir?" Apesar de tudo, talvez não seja impossível, só improvável. Receio, no entanto, que esta seja uma afirmação homofóbica, e que possa ser processado pela Hilda ou Olga ou lá quem ela é.

Já lá vai o tempo em que às vezes saíamos e o frio era tal que o peito nos doía. Não foi o tempo que mudou, fomos nós. Primeiro que tudo, saímos muito menos; e segundo que tudo, estamos mais habituados ao clima por aqui. Sim, porque isto não é Bragança, mas também não é Lisboa. Terceiro que tudo, estamos mais velhos, e talvez com menos sensibilidade para as temperaturas.

Sempre achei interessante que, entre Lisboa e Carnaxide, e mesmo de verão, houvesse uma diferença de temperatura que podia ser de dois graus, com Lisboa mais quente. Há quem diga que as cidades são mais quentes, pela atividade, áreas pavimentadas e coisas dessas. Há quem diga que quem assim pensa deve ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Não estou a brincar, acham mesmo. Há uma guerra sobre isto e assuntos relacionados; nós, por cá, é que não sabemos, e eu cansei-me desta guerra.

Aqui, a cidade mais a jeito está a treze quilómetros, e a outra a seguir a dezoito. O transporte depende de se ter um e da boa vontade. Quem perde o autocarro, que passa, salvo erro, duas vezes por dia e a desoras, vai para o fim da vila e pede boleia.

A vila está a uns quinhentos metros, e nós a meio de uma ladeira, das que descem para o nosso lado e sobem para o lado da vila. A diferença entre onde estamos e o alto da ladeira também chega, por vezes, aos dois graus. E se acreditarmos no termómetro do carro, e andarmos por aí, em certos lugares da serra quase que dispara o aviso de gelo. Que até o há, por vezes; mas há mais é javalis, e para isso não há alarme que valha.

Reprovavelmente, a minha memória abriu um ficheiro sobre o inverno num sítio que é mesmo na Europa e onde eu fui largado, mal cheguei, na minha "première" absoluta da escolaridade, aos cinco anos, sem saber sequer que havia países fora de Portugal. Eles perguntavam-me "Comment t'appeles tu?", e eu achava que aquilo do "tá pele" devia ser qualquer coisa sobre pele, mas o que diacho poderia ser? E donde lhes vinha esse raio de ideia obsessiva com a pele? Eu teria alguma coisa na pele? Olhava para as mãos e inspecionava-me ao espelho até ter a certeza que não tinha nada na pele.

O inverno não era tão frio como cá, porque tinham aquecimento central. Pelo menos nós tínhamos, e a escola também. Funcionava a carvão, que aquecia uma caldeira cuja pressão tinha de ser vigiada. As janelas tinham portadas exteriores em harmónio, que eles chamam "vasisdas", e que a tradição diz que vem do alemão "Was ist das?", o que lhes serve para dizer que os Boches são primitivos. De manhã, o gelo tinha desenhado cristais nos vidros e tocar neles era quase doloroso. Depois, fazíamos desenhos no gelo, que desaparecia durante a manhã.

Também os passeios tinham gelo, em que se escorregava, ou neve, que podia ser branca e lisa, caída há pouco, ou cinzenta escura e amarrotada, se de há muito dias, ou com pocinhos amarelo-dourados, das aflições satisfeitas. Depois, progressivamente, tornava-se em gelo. Eu dava-lhe pontapés e fazia cilindros de neve. Bolas de neve grandes dão muito trabalho para ficarem esféricas: há que as ir torneando constantemente. Um cilindro, assim como uma roda, é mais jeitoso, porque é só ir empurrando por aí fora. É a minha contribuição para a inovação, mas não chegou ao empreendedorismo.

Nas estâncias de neve apreendíamos a distinguir os tipos de neve para untar os esquis com o lubrificante mais apropriado. Já me esqueci de tudo isso, claro, mas fosse como fosse não havia tantas expressões para a neve como palavras para ela tem os esquimós. Eram só umas três ou quatro; e havia uma categoria com a qual nem valia a pena pegar nos esquis, porque não se ia a lado nenhum, afundávamo-nos. Mas é sempre emocionante fazer uma travagem e atirar, com os esquis, um muro de neve em arco para o ar.

Bonito era o degelo. O degelo não é só um fenómeno de início da primavera, é também um estado de espírito. A neve começa a derreter e formam-se regatos. Dão a ideia de uma força vital subterrânea a vencer a força cósmica do frio, que parecia ter destruido toda a natureza. Assim de certa forma, tem lugar a Páscoa e todas as celebrações da primavera, que era, apropriadamente, o início do ano na antiguidade. Algum tempo depois nasciam os "boutons d'or", pequenas florinhas de um amarelo intenso, por vezes rompendo a neve, que aprendi serem rainúnculos. A força vital do novo ano tinha-se estabelecido. O inverno, as frieiras e a roupa blindada estavam a acabar e em breve, no primeiro dia de maio, ia fazer-se um pique-nique num bosque e apanhar campaínhas. E chegavam os pássaros.

Por cá também há estações mas algumas, especialmente as intermédias, não se notam tanto, e menos ainda nas cidades. As árvores, regra geral, não perdem as folhas. Bom, as usadas nas cidades, perdem. A erva continua verde, só que é menos alta. Depois, subitamente, em menos de uma semana, a erva desata a crescer, e o campo enche-se de grandes manchas de flores brancas, amarelas, encarnadas e roxas, que lhe dão largas áreas de cor como se tivessem sido feitas com um aerógrafo. Mas o degelo é qualquer coisa.

Hoje, ao que vejo, deixei que a minha memória tomasse conta disto. A reforma é uma altura para escrever memórias em se sendo dado a remoer; se bem que, como já disse aqui e ali, acho essa atividade, ou o seu resultado, do mais pífio e reprovável possível. Então, aqui temos um artigo pífio e reprovável. Mas, por outro lado, a maior parte do que escrevemos, senão tudo, tem a ver connosco, e assim escrever sobre o que temos na memória é inescapável, e assim o ser pífio. Podia imaginar, e assim viria da imaginação. Mas, está visto, a minha imaginação dá-me para outras coisas bem piores, que não a escrita. Temos de viver com aquilo que temos e, como os cínicos, não alimentar falsas esperanças.

 

publicado por xyzt às 22:10
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